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O REINO DAS CASUARINAS


FICÇÃO | ANGOLA | 2019 | 90 MIN | EM DESENVOLVIMENTO


FICHA TÉCNICA


Realização e Guião: Fradique 

Produção: Jorge Cohen & Paula Agostinho

Adaptação do Romance de José Luis Mendonça


LOGLINE


Nkuku, um funcionário público sem voz na Angola socialista de 1987, enfrenta a angústia de deixar para trás a sua vida oprimida, depois de reencontrar o seu melhor amigo numa pequena comunidade de párias.


SINOPSE


Estamos no ano de 87, na República Popular de Angola. Nkuku, um veterano de guerra mutilado que se transforma num funcionário público sem voz, vive a monotonia da sua vida como trabalhador do Ministério do Comércio, no falhado Estado socialista. Mora com o seu gato Stravinski no apartamento onde cresceu. Passa a maior parte das suas noites a ler romances, enquanto assiste à telenovela brasileira Gabriela, Cravo e Canela.

Nkuku sente-se afogado na desesperança, entre a propaganda socialista de Luanda, o abandono urbano e os contrastantes preparativos para o Carnaval. Anseia pela realização do sonho que uma vez sonhou para o seu país e para o seu melhor amigo, Primitivo, desaparecido há dez anos, durante a maior perseguição política que jamais houve em Angola, contra as vozes dissidentes do país.

Um dia, enquanto comprava peixe para a sua irmã, Sindikele, Nkuku reencontra Primitivo. Contudo, este não o reconhece de volta. Juntamente com mais seis pessoas, Primitivo criara uma pequena comunidade chamada o "Reino das Casuarinas". Os seus habitantes vivem num balneário abandonado, no coração da floresta da Ilha de Luanda. Todos eles foram vítimas de violentos traumas no passado, o que fez com que perdessem a memória e fossem marginalizados pela sociedade.

Nkuku decide reavivar a amizade com Primitivo e descobre tudo o que lhe aconteceu. À medida que vai passando mais dias deambulando entre o Reino e o mundo exterior, começa a perder a noção do tempo, falta ao trabalho, fala sozinho e perde a confiança da irmã. Depois de aprender as leis e as experiências do comunitarismo do Reino, passa a acreditar que aquela sociedade é mais justa e igualitária do que a do mundo lá fora. É quando decide mudar-se para o Reino das Casuarinas com Stravisnki. Uma vez instalados, eles têm que enfrentar a ameaça constante que lhes chega da vila piscatória vizinha. Tudo isso conduz ao ferimento de Primitivo, às mudanças na Constituição do Reino, ao assassinato de Stravisnki e, por fim, à expulsão de Nkuku.

No final, depois de encontrar Primitivo e os demais habitantes do Reino mortos, Nkuku vai provar o amargo sabor da verdade: essa nova sociedade que ele ajudou a construir falhou, tal como a República Popular de Angola. Menosprezar um dos membros mais vulneráveis e sem voz foi o erro que os levou à morte. A percepção de tudo isso faz com que Nkuku perda a sua sanidade mental de uma vez por todas.


NOTA DO REALIZADOR


Depois de passar seis anos a fazer um documentário sobre aqueles que, apesar de terem sido esquecidos, participaram na nossa Luta de Libertação, senti a necessidade de que o meu próximo filme lidasse com um assunto mais recente ou, pelo menos, com a geração pós-independência, a geração dos meus pais.

Foi uma geração que viveu o auge da nossa revolução socialista. O sonho deles tornou-se realidade: o estado da igualdade e da classe operária triunfou na República Popular de Angola - mas apenas durante um breve período de tempo. Tudo mudou com a interminável Guerra Civil e com a tentativa de Golpe de Estado que levou o nosso país à sua maior perseguição política. Centenas de pessoas morreram, foram presas ou, simplesmente, desapareceram. Era o fim do sonho. O Estado que eles ajudaram a construir tornou-se paranóico e opressivo. Não havia mais espaço para vozes dissidentes, nem para o debate. 

Depois de ler O Reino das Casuarinas, de José Luís Mendonça, romance no qual se baseia o filme, pude sentir de perto esses sonhos e esses sonhadores que acabaram destruídos. Pior ainda, vi como eles terminaram: a deambular seminus pelas ruas da cidade, sem qualquer sentimento de pertença, tentando encaixar numa sociedade que os rejeitava sistematicamente.

No livro de Mendonça descobri que, nesta densa nuvem de desespero e angústia existencial, nos tornámos reféns da esperança. Tal como os habitantes do Reino das Casuarinas, nós, angolanos e angolanas, vivemos diariamente as nossas vidas numa espécie de exilo interior. Com este filme, quero partilhar pelo olhar do Nkuku as nossas maiores aspirações e as profundezas dos nossos medos mais obscuros. 


RESIDÊNCIAS + LABORATÓRIOS

  • Realness Screenwriters Residency | África do Sul | 2017